I. Introdução: O Ofício
Profético
A. Observações Introdutórias
Sobre os Ofícios em Geral.
1. A IDÉIA DOS OFÍCIOS NA
NATUREZA. É costume falar de três ofícios com relação à obra de Cristo, a
saber, os ofícios profético, sacerdotal e real; Se deve entender que Ele agiu e
age em Sua tríplice capacidade em Seu estado de humilhação e em Seu estado de
exaltação.
Os termos são utilizados em todo
o Velho Testamento como designativos daqueles que, nos ofícios de profeta,
sacerdote e rei, tipificavam Cristo. Em Cristo os três ofícios estão agrupados
numa pessoa. O resultado é que não podemos discriminar agudamente entre as
diferentes funções constitutivas da obra oficial de Cristo. A obra mediatária é
sempre realizada pela pessoa completa; nem uma só obra pode ser limitada a
qualquer dos ofícios. Deve afirmar o exercício da realeza profética e sacerdotal
igualmente nos estados de humilhação e de exaltação
2. A IMPORTÂNCIA DA DISTINÇÃO.
Explica-se o fato de Cristo ter sido ungido para um tríplice ofício com o fato
de que o homem foi originariamente destinado ao exercício desse tríplice ofício
e respectiva obra. Como criado pro Deus, ele foi profeta, sacerdote e rei e,
nestas qualidades, foi adotado de conhecimento e entendimento, de justiça e
santidade, e de domínio sobre a criação inferior. O pecado afetou a vida toda
do homem e se manifestou, não somente como ignorância e cegueira, erro e
falsidade, mas também como injustiça, culpa e corrupção moral; e, em acréscimo,
como enfermidade, morte e destruição. Daí, foi necessário que Cristo, como o
nosso mediador, fosse profeta, sacerdote e rei. Como profeta, Ele representa
Deus para com o homem; como Sacerdote, ele representa o homem na presença de
Deus; e como Rei, ele exerce domínio e restabelece o domínio original do homem.
B. O Ofício Profético.
1. A IDÉIA ESCRITURÍSTICA DE
PROFETA.
a. Os termos empregados na
Escritura. O velho Testamento emprega três palavras para designar um profeta. O
sentido da palavra por passagens como Ex. 7.1 e Dt 18.18, fica evidente que a
palavra designa alguém que vem com mensagem da parte de Deus para o povo. As
palavras acentuam o fato de que o profeta é alguém que recebe revelações da
parte de Deus, particularmente na forma de visões. Estas palavras são usadas
uma pela outra. Outros designativos são “homem de Deus”, “mensageiro do Senhor”
e “vigia”. Estes apelativos indicam que os profetas estão prestando serviço
especial ao Senhor e velam pelos interesses espirituais do povo. No Novo
Testamento usa-se a palavra significa
“proferir”. O profeta é alguém que fala da parte de Deus. Desses nomes,
tomados em conjunto, podemos deduzir que o profeta é alguém que vê coisas, isto
é, que recebe revelações, que está a serviço de Deus, particularmente como
mensageiro, e que fala em Seu nome.
b. Os dois elementos reunidos na
idéia. As passagens clássicas de Êx 7.1 e Dt 18.18, indicam a presença de dois
elementos na função profética, um passivo e outro ativo, um receptivo e o outro
produtivo. O profeta recebe revelações divinas em sonhos,visões ou comunicações
verbais; e as transmite ao povo, quer oralmente, quer visivelmente, nas ações
proféticas, Nm 12.6-8; Is 6; Jr 1.4-10; Ez 3.1-4, 17. Destes dois elementos, o
passivo é o mais importante, porquanto ele governa o elemento ativo. Sem
receber, o profeta não pode dar, e ele não pode dar mais do que recebe. Mas o
elemento ativo, também é parte integrante. Para receber uma revelação não é preciso ser profeta. Pensamos em
Abimeleque, Faraó e Nabucodonosor, todos os quais receberam revelações. O que
faz de alguém um profeta é a vocação divina, a ordem para comunicar a outros a
revelação divina.
c. O dever dos profetas. Era
dever dos profetas revelar a vontade de Deus ao povo. Isto podia ser feito na
forma de instrução, admoestação e exortação, promessas gloriosas ou censuras
severas. Eles eram os monitores ministeriais do povo, os intérpretes da lei, especialmente
nos seus aspectos morais e espirituais. Era seu dever protestar contra o mero
formalismo, acentuar o dever moral, fazer ver a necessidade do serviço
espiritual e promover os interesses da verdade e da justiça. Se o povo se
afastava das veredas do dever, eles tinham que chamá-lo de volta à lei e ao
testemunho, e anunciar o iminente terror do Senhor sobre os ímpios. A sua obra estava intimamente relacionada com
as promessas da graça de Deus para o futuro. Era seu privilégio descrever as
coisas gloriosas que Deus tinha em depósito para o Seu povo. Também fica
evidente pela escritura que os verdadeiros profetas de Israel tipificavam o
grande profeta que havia de vir no futuro, Dt 18.15, cf. At 3.22-24, e que já
estava agindo por meio deles nos dias do velho testamento, 1 Pe 1.11.
2. DISTINÇÕES APLICADAS À OBRA
DE CRISTO. Cristo age como profeta de várias maneiras:
a. Tanto antes como depois da
encarnação. Ele agiu como profeta mesmo na antiga dispensação, como nas
revelações especiais do Anjo do Senhor, nos ensinos dos profetas, nos quais
agiu como o espírito de revelação (1 Pe 1.11), e na iluminação espiritual dos
crentes. Aparece em Provérbios 8 como a sabedoria personificada, ensinando os
filhos dos homens. Depois da encarnação Ele prosseguiu em Sua obra profética
com os Seus ensinos e milagres, com a pregação dos apóstolos e dos ministros da
palavra, e também com a iluminação e instrução dos crentes como o espírito que
neles habita. Ele continua a Sua atividade profética desde os céus, mediante a
operação do Espírito Santo. Seus ensinos são verbais e fatuais, isto é, Ele não
só ensina por meio de comunicações verbais, mas também pelos fatos da
revelação, como encarnação, a Sua morte expiatória, a ressurreição e a
ascensão; e até durante o período do Velho Testamento, mediante tipos e
cerimônias, mediante os milagres da história da redenção e mediante a direção
providencial do povo de Israel.
b. Tanto imediata como
mediatamente. Ele exerceu o Seu ofício profético imediatamente, como o Anjo do
Senhor do período do velho Testamento, e como o Senhor encarnado, por meio dos
Seus ensinos e também do Seu exemplo, Jo 13.15; Fp 2.5; 1 Pe 2.22. E o exerceu
mediatamente, através da operação do Espírito Santo, por meio dos ensinos dos
profetas do Velho Testamento e dos apóstolos do Novo, e o exerce agora mesmo,
pelo Espírito que habita nos crentes, como também pela instrumentalidade dos
ministros do Evangelho. Isto significa também que ele dá continuidade à Sua
obra profética objetiva e externamente, e subjetiva e internamente mediante o
Espírito, que é descrito como o Espírito de Cristo.
3. PROVAS BÍBLICAS DO OFÍCIO
PROFÉTICO DE CRISTO. A Escritura atesta de várias maneiras o oficio profético
de Cristo. Ele é prenunciado como profeta em Dt 18.15, passagem aplicada a
Cristo em At 3.22, 23. Ele fala de Si como profeta em Lc 13.33. Além disso,
alega que traz uma mensagem do Pai, Jo 8.26-28; 12.49, 50; 14.10, 24; 15.15;
17.8, 20; prediz coisas futuras, Mt 24.3-35; Lc 19.41-44, e fala com singular
autoridade, Mt 7.29. Suas poderosas obras serviam para autenticar a Sua
mensagem. Em vista disso tudo, não admira que o povo O tenha reconhecido como
profeta, Mt 21.11, 46; Lc 7.16; 24.19; Jo 3.2; 4.19; 6.14; 7.40; 9.17.
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